segunda-feira, 18 de setembro de 2017

As You Are (2016)

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As You Are de Miles Joris-Peyrafitte é uma longa-metragem norte-americana e uma das que se encontra na Competição Oficial da vigésima-primeira edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre até ao próximo dia 21 no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Jack (Owen Campbell) é um adolescente solitário. Metido nos seus assuntos e distante de qualquer comportamento social, a sua vida é subitamente alterada quando Karen (Mary Stuart Masterson), a sua mãe, inicia uma relação com Tom (Scott Cohen), que eventualmente se muda para a sua casa juntamente com Mark (Charlie Heaton), o seu filho. Mark é um jovem cujo comportamento é a total antítese de Jack e aquilo que parecia estar condenado cedo se desenvolve enquanto uma sólida e cúmplice amizade.
No entanto, quando Sarah (Amandla Stenberg) se junta ao par, as emoções e os sentimentos alteram-se gerando um ciúme com o qual não será fácil lidar. Estará esta relação entre Jack e Mark para lá de uma cumplicidade fraterna? Poderá ela existir além da relação fraterna que de ambos se espera?
As You Are cujo argumento é da autoria de Joris-Peyrafitte em colaboração com Madison Harrison tem como base directa a curta-metragem do realizador As a Friend (2014) e explora a relação de dois jovens - "Jack" e "Mark" - através daquilo que inicialmente compreendemos como um interrogatório policial fruto de um qualquer evento que sucedeu na vida de ambos. É através dos vários testemunhos que o espectador não só observa a relação tida entre todos os intervenientes como também ganha conhecimento sobre a relação que os dois jovens desenvolvem. Inicialmente tidos como dois opostos que poderiam eventualmente complementar as lacunas que cada um tinha, o comportamento de ambos desenvolve-se muito rapidamente para uma relação cúmplice, de alguma posse não assumida e até mesmo de um carinho que ultrapassa os limites fraternos que seriam de esperar.
Se esta cumplicidade é um factor predominante em toda a longa-metragem, a ela vem associada o desenvolvimento - ou despertar - sentimental e sexual que sentem. Inadaptados para um qualquer mundo exterior que o espectador nunca chega a conhecer, aquilo que nos é revelada é que a empatia sentimental entre ambos é notória e crescente. "Jack" e "Mark" não se comportam como dois meros amigos mas sim como dois silenciados apaixonados que sentem na proximidade do outro a segurança afectiva que, até então, nunca havia sido garantida.
Os desenvolvimentos que o espectador acompanha, e que cada vez mais revelam o acontecimento de algo trágico - e que facilmente se compreende sobre quem -, fazem denotar as frágeis e inexperientes emoções de tantos jovens incapazes de compreender os seus sentimentos, o despertar de uma vida sentimental, afectiva e até mesmo sexual e a sua inadaptação a uma rejeição. No entanto, esta rejeição não chega sob a forma de falta desse sentimento mas sim pelo medo sentido da incompreensão dos ditos adultos que, ao mesmo tempo, gera uma revolta e violência nestes para com os mais novos e nos jovens para consigo próprios na medida em que repudiam os seus sentimentos e os afectos que lhes podem conferir uma vida sentimental saudável e em plenos crescimento.
Mas esta tensão não é exclusiva dos jovens. Pelo contrário, "Karen", a personagem interpretada por uma saudosa Mary Stuart Masterson é o exemplo de uma jovem mãe solteira, repleta de vida e amor para dar - e receber na igual proporção - que espera pela oportunidade de uma relação duradoura, capaz de a completar (e ao seu filho) na ausência de um marido, pai e companheiro que não só imponha as regras sociais como também a elas se adapte. Mas, no entanto, quando se abre a porta ao primeiro homem que lhe aparece, permanece a dúvida sobre até que ponto aquilo que se conhece é a fase de encantamento e sedução... que nem sempre permanecem... e o que sobra não será apenas um vislumbre de algo que eventualmente se teve mas que já não se deseja. Assim, se a relação sentimental, afectiva e cúmplice entre os dois jovens parece frágil pela possibilidade de se concretizar, não deixa de ser uma realidade que aquela tida pelos adultos não é mais estável e segura... bem pelo contrário!
A tensão sentida pelos jovens - que apenas se vem agudizar com a presença de "Sarah" que acaba por se transformar no elo de normalidade que, a certa altura ambos sentem mas que se torna mais vincada para "Mark" - transforma-se numa revolta interior quando "Jack" se sente traído nos seus sentimentos, nos seus actos e até no afecto que até então não havia sentido por ninguém. Da química à revolta, da cumplicidade ao ciúme, "Jack" e "Mark" vivem os momentos que poderão ser transformadores nas suas vidas.
No final, como resultado directo daquilo que havíamos escutado no início, assistimos a uma fuga... a um pedido de ajuda. Ficamos com a confirmação de que independentemente de um assassinato ou de um suicídio, a vida daqueles dois jovens ficou irremediavelmente perdida. Perdida graças à morte, ao sofrimento e principalmente graças à incapacidade de aceitação por parte de uma sociedade que prefere aceitar padrões de uma normalidade auto-imposta do que compreender e respeitar o mais profundo dos sentimentos de amor e de amizade. Tudo o que é dito "desviante" acaba por ser tornar inaceitável e, como tal, a ser repudiado. Os traumas daqui resultantes e nunca aceites como tal são transformadores. Podem até ser fatais como aqui confirmamos. Mas em nome de uma masculinidade e da manutenção de padrões de sexualidade, perpetuam-se as injustiças e marginalizam-se os sentimentos e os afectos... ainda que puros, sentidos e honestos.
Com brilhantes interpretações de Owen Campbell como "Jack", o jovem anti-social que consegue pela primeira vez estabelecer uma cúmplice amizade e aquele que, no fundo, mais se desenvolve no campo da afectividade, e Charlie Heaton como "Mark", o adolescente ultra-confiante que receia um amor sentido e puro, As You Are revela ainda uma reaproximação de Mary Stuart Masterson ao grande ecrã - tão desaparecida tem estado - com uma interpretação confiante e, também ela, desesperadamente à procura de um amor que tarda em chegar, e é abrilhantado com uma exímia direcção de fotografia de Caleb Heymann que capta a energia da proximidade de um Verão escaldante e uma atmosfera muito anos '90 onde ainda conseguia reinar uma certa inocência e puerilidade teen que dão um intenso charme à câmara de Joris-Peyrafitte revelando-o como um dos novos e emergentes realizadores para quem o espectador terá - e irá - ficar atento confirmando assim que a competição de longas-metragens do QueerLisboa este ano está forte e bem renhida.
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8 / 10
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sábado, 16 de setembro de 2017

Beach Rats (2017)

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Beach Rats de Eliza Hittman é uma longa-metragem norte-americana presente na Competição Oficial da vigésima-primeira edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 23 de Setembro.
Frankie (Harris Dickinson)  é um adolescente à deriva que tenta descobrir a sua identidade sexual ao mesmo tempo que vive um drama familiar devido à débil condição de saúde do seu pai. Numa rotina que gira em torno das saídas com os seus amigos de Brooklyn, uma potencial nova namorada e os encontros com homens mais velhos que marca online, Frankie tenta desesperadamente encontrar um lugar... que pode não chegar.
Também com um argumento da autoria de Eliza Hittman, Beach Rats foi o vencedor do prémio de realização da última edição do Festival de Sundance, girando em torno da história de um jovem que tenta desesperadamente encontrar o seu verdadeiro "eu" conseguindo, dessa forma, sobreviver àquela idade de uma incerteza que é não só enquanto o indivíduo que é mas também a propósito da sua sexualidade e necessidades afectivas. A existência de "Frankie" resume-se a uma aparente despreocupação enquanto passeia por Brooklyn com os amigos - todos potenciais marginais - e consome qualquer tipo de droga que consegue roubada dos medicamentos do pai. A pressão dos pares e uma irmã para quem a expressão da sua vida sentimental e, de certa forma, sexual parece ser tão simples, fazem de "Frankie" um jovem adulto cuja existência se limita à omissão, à mentira, à repressão e, essencialmente, a uma involuntária regressão de personalidade que lentamente o confinam a uma auto-violência emocional.
No entanto, "Frankie" encontra uma escapatória para este seu drama quando começa a seduzir homens mais velhos - aqueles que, segundo ele, não conhecem ninguém do seu círculo de amigos - e com quem pode livremente expressar a sua sexualidade. Mas, aquilo que aparentava ser o escape perfeito para a sua sexualidade cedo se transforma numa prisão na medida em que tem de continuar a esconder-se do mundo e viver uma fachada... enquanto a luz do sol brilha. Os encontros são sempre anónimos, em locais desertificados e inicialmente a troca de alguma droga que consome como que utilizando uma desculpa para poder manifestar os seus desejos e expressar os tais sentimentos que o "mundo" desconhece. No entanto, e à medida que o cerco social - mãe, namorada e amigos - aperta, impossibilitando-o de continuar a viver esta existência dupla, "Frankie" terá de perceber que para lá das condicionantes que o rodeiam, aquilo que o define não é a imagem que os outros têm de si mas aquela que ele é capaz de suportar cada vez que olha para o espelho.
Da pressão de pares exercida por aqueles com quem convive mais tempo mas que não passa de uma amizade por conveniência - drogas e mulheres que se tentam encontrar diariamente - à pressão efectuada (de certa forma...) pela imagem que lhe foi incutida de normalidade - homem encontra mulher - "Frankie" desespera silenciosamente como que de uma luta pela sua própria sobrevivência se tratasse. Conseguirá ele alguma vez fazer co-existir estes dois traços da sua personalidade e sexualidade ou, por sua vez, terá ele de (se) assumir ao mundo quem realmente é? Os breves instantes em que ele observa a sua irmã mais jovem nos primeiros actos de uma paixoneta e sente que tudo é tão fácil para ela enquanto que o próprio percebe que tem primeiro de respeitar a imagem social que dele foi criada e só na sombra poder ser livre e quem realmente é, transformam-no em alguém que se auto-mutila psicologicamente apenas para manter aquilo que as aparências (pensa) pedem.
Harris Dickinson - o jovem "Frankie" - dá corpo a toda esta dualidade (e duplicidade) de momentos, sentimentos, expressões e manifestações de uma juventude que tem não só de sobreviver enquanto indivíduo mas também perante os seus pares sociais e grupos primários exaltando com a sua personagem uma intensidade dramática e individual dignas de registo para quem tem (ainda!) um tão jovem percurso enquanto intérprete deixando adivinhar aquilo que de bom ainda o espera. Aqui, o espectador vibra não só com o seu drama silenciado de jovem incapaz de fazer seguir a sua vida em total liberdade, como também pela incapacidade que sente - ou reprime?! - ao perceber que tudo é (para os demais) bem mais simples, menos questionado e igualmente pouco esperado. Tudo é "normal" para os demais... porque não poderá ser para ele? Ainda que pouco explorado em Beach Rats, existe todo um drama familiar que ficou por abordar sendo que, no entanto, percebemos aquando do início da sua breve relação com "Simone" (Madeline Weinstein) que dele se espera que a relação seja tão parecido com aquela que os seus pais tiveram... A pressão, ainda que pouco dinamizada neste guião, sente-se e Dickinson consegue recriá-la por breves mas intensos apontamentos que o seu olhar deixa escapar durante os mesmos.
Finalmente, e também como um apontamento breve de Beach Rats, Hittman deixa passar a ideia de que é nesta era global e informatizada onde tudo está ao alcance de um simples click num computador, que as relações humanas se tornam mais complexas, menos vividas e sentidas e assumidamente mais impessoais. As pessoas encontram-se pelo único instante de prazer imediato que sabem que esse encontro irá proporcionar, e muito pouco preocupadas com aquilo que a longo prazo dali podem retirar - que será nada graças ao seu imediatismo -, desumanizando o contacto, tornando-o semi-animalesco e impessoal... mas sobretudo anónimo... os nomes tornam-se secundários e o indivíduo irrelevante... hoje um... amanhã outro. Num mundo onde tudo se pode ter e conhecer... permanece a questão sobre se realmente se tem e conhecer algo ou alguém?!
Numa atmosfera muito século XXI e na intensidade de um qualquer Verão que parece ser o marco de um fim e de um (talvez não) tão novo início, Beach Rats tem ainda uma magnífica direcção de fotografia de Hélène Louvart que parece desumanizar os intérpretes e os espaços conferindo-lhes uma dinâmica de um constante anonimato nem sempre involuntário e uma música de Nicholas Leone que - essa sim - consegue criar a tal atmosfera destes anos dois mil que, por instantes, parece que o espectador desconhece.
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8 / 10
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Arroios Film Festival 2017: os vencedores

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Terminou hoje a segunda edição do Arroios Film Festival, em Lisboa, cujo principal tema foi o da inclusão. Com quase quarenta filmes curtos em competição, o AFF premeia a melhor curta-metragem nas áreas de Ficção, Documentário e Animação e ainda o melhor trabalho transversal a toda a competição.
Foram os vencedores:
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Grande Prémio - Prémio Libertas: Watu Wote, de Katja Benrath (Alemanha)
Ficção: New Neighbors, de E. G. Bailey (EUA)
Documentário: Luíza, de Caio Baú (Brasil)
Animação: Dent de Lléo, de Jorge Bellver (Espanha)
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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Harry Dean Stanton

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1926 - 2017
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European Achievement in World Cinema goes to...

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A Academia Europeia de Cinema anunciou hoje o nome da galardoada com o EFA - European Achievement in World Cinema. Com uma carreira que se estende tanto à frente como por detrás da câmara, da interpretação à realização sem esquecer o argumento, a actriz francesa Julie Delpy é portadora de uma carreira que se iniciou em 1978 com a longa-metragem Guerres Civiles en France, de François Barat, Jöel Farges e Vincent Nordon e "um exemplo de dedicação à arte cinematográfica".
Foi, no entanto, com Mauvais Sang (1986), de Leos Carax que Delpy alcançou o seu primeiro grande sucesso incluindo uma nomeação ao César da Academia Francesa de Cinema na categoria de Melhor Actriz Revelação.
Com uma carreira que ultrapassava as fronteiras do seu país natal, Delpy trabalhou com inúmeros realizadores tanto na Europa como nos Estados Unidos onde finalmente alcança o estatuto de estrela internacional ao interpretar Before Sunrise (1995), de Richard Linklater ao qual se seguiram Before Sunset (2004) e finalmente Before Midnight (2013) trilogia pela qual recebeu duas nomeações ao Oscar de Melhor Argumento Adaptado em 2005 e 2014.
No seu curriculum, Julie Delpy inclui ainda as longas-metragens Déctetive (1985), de Jean-Luc Godard, La Passion de Béatrice (1987), de Bertrand Tavernier, La Noche Oscura (1989), de Carlos Saura, Europa Europa (1990), de Agnieszka Holland, Homo Faber (1991), de Volker Schlöndorff, Warszawa. Année 5703 (1992), de Janusz Kijowski, na trilogia Trois Couleurs: Bleu (1993), Blanc (1994) e Rouge (1994), de Kzrysztof Kieslowski, Killing Zoe (1993) de Roger Avary, The Three Musketeers (1993), de Stephen Herek, Tykho Moon (1996), de Enki Bilal, An American Werewolf in Paris (1997), de Anthony Waller, Waking Life (2001), de Richard Linklater, Broken Flowers (2005), de Jim Jarmusch, The Hoax (2006), de Lasse Hallström, Avengers: Age of Ulton (2015), de Joss Whedon, Wiener-Dog (206), de Todd Solondz tendo ainda protagonizado obras que realizou como 2 Days in Paris (2007), The Countess (2009), Lolo (2015) ou o ainda por estrear My Zoe (2018) numa carreira onde contracenou com actores como Jean-Pierre Léaud, Juliette Binoche, Greta Gerwig, Tchéky Karyo, Michel Piccoli, Denis Lavant, Tom Everett Scott, Woody Allen, Ethan Hawke, Manuel de Blas, Michelle Williams, Michael Vartan, Marco Hofschneider, Sam Shepard, Barbara Sukowa, Lambert Wilson, Hanna Schygulla, Dermot Mulroney, Brendan Fraser, Donald Sutherland, Lolita Davidovich, Emmanuelle Riva, Eric Stoltz, Kiefer Sutherland, Charlie Sheen, Chris O'Donnell, Tim Curry, Irène Jacob, Rebecca De Mornay, Jean-Louis Trintignant, Billy Wirth, Martin Short, Alan Cumming, Bill Murray, Tilda Swinton, Sharon Stone, Jessica Lange, Richard Gere, Alfred Molina, Kathy Bates, Gerard Butler, Adam Goldberg, Daniel Bruühl, Andy Garcia, Sarah Michelle Gellar, William Hurt, Anamaria Marinca, Eric Elmosnino, Chris Rock, Robert Downey Jr., Chris Evan, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Don Cheadle, Chris Hemsworth ou Gemma Arterton.
Entre os prémios e nomeações já alcançados destacam-se ainda duas nomeações aos European Film Awards enquanto Melhor Actriz e Melhor Filme, uma nomeação como Melhor Actriz em Comédia/Musical nos Globos de Ouro da HFPA e ainda diversas indicações na crítica especializada norte-americana.
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A trigésima cerimónia dos European Film Awards irá realizar-se no próximo dia 9 de Dezembro em Berlim, na Alemanha.
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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Fernanda Borsatti

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1931 - 2017
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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Frank Vincent

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1939 - 2017
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Meia Noite (2017)

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Meia Noite de Bruno Carnide é uma curta-metragem portuguesa de ficção e o mais recente trabalho do realizador de Em Terra Frágil (2011), Calou-se. Saiu. Saltei. (2014) e Manuel (2015).
De noite. O telefone toca. Um vulto. Uma mensagem que fica por gravar.
Com um argumento da autoria do realizador, Meia Noite aparenta ser a viagem de um vulto pela noite de uma cidade onde todos já se apagarem por entre as paredes das suas casas. Em dois breves minutos o espectador percorre os silêncios e as sombras de uma cidade que dorme. A tranquilidade e os vultos que insistem em percorrer a cidade numa viagem que opõe o "ser" ao "espaço" como que um habitante já ido que revisita os lugares onde (con)viveu e que conheceu. Agora, num silêncio profundo apenas perturbado pela insistência de uma mensagem que não é gravada, Meia Noite e o seu vulto visitante anónimo é apenas confirmado pelas sombras e pelas luzes que se extinguem à medida que passa.
Da desertificação do espaço - pela ausência de e do ser - à homenagem às sombras da cidade - num registo de direcção de fotografia também da autoria do realizador - Meia Noite tanto pode uma homenagem do Homem/Mulher ao espaço através da presença do vulto que por ela vagueia, como a sua despedida a um espaço onde agora já não habita fisicamente mas que identifica como uma parte do seu ex-ser destacando essa direcção de fotografia que transforma a noite de uma cidade num espaço fantasmagórico onde a presença humana parece ter sido "agora" abandonada.
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6 / 10
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Woodgreen (2017)

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Woodgreen de Welket Bungué é uma curta-metragem de ficção de co-produção brasileira e britânica que relata a viagem de Soho N'a (Bungué), um emigrante guineense residente em Londres que embarca numa viagem para o Brasil aquando de uma crise matrimonial. Chegado a terras de Vera Cruz, fica perdido numa ilha durante dez dias e ao regressar, decide gravar a sua viagem de volta a Londres com a câmara do telemóvel apenas para perceber que o espaço tal como o conhecia... já não parece ser o mesmo.
Com argumento também da autoria de Welket Bungué, Woodgreen regista três momentos distintos... Do primeiro em que atravessa os locais de uma folia carnavalesca num Brasil distante a um segundo que capta uma Londres intensa mas indiferenciada onde todos caminham sem ninguém se olhar numa clara dicotomia calor versus frio que opõem as sociedades Sul-Americanas e Europeias. Numa espera-o uma vida de indiferença e distanciamento que lhe recordam tudo o que perdeu... casa, mulher e cão. Na outra a ideia de uma vida diferente, talvez melhor, onde a mudança lhe confere uma réstia de oportunidade.
Do desespero de um homem à sua viagem pela busca de uma nova oportunidade, Woodgreen reflecte sobre as oportunidades e escolhas - quando as pode fazer - de um homem deslocado da sua terra que tenta encontrar um espaço - novo e seu - ultrapassando barreiras e obstáculos que surgem pela confiança e inexperiência que tudo o que se apresenta como "novo" lhe colocam.
Num registo semi-documental onde este e a ficção se confundem, esta curta-metragem filmada na primeira pessoa como que de um registo de viagem se tratasse explora a solidão do Homem em breves minutos que deixam no espectador a vontade de conhecer um pouco mais - dele e da sua viagem - para lá dos breves apontamentos situacionais que nos são fornecidos em legendas. Interessante pela ideia de exploração do desconhecido como caminho possível para essa tal nova oportunidade, Woodgreen apenas "falha" pela sua (infelizmente) curta duração.
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6 / 10
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Shortcutz Viseu 2017: os vencedores

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O Shortcutz Viseu anunciou hoje os seus vencedores. Contrariamente ao que sucedeu nos últimos anos, o quarto aniversário do evento na cidade não ocorreu sob uma forma física mas, ainda assim, o Shrotcutz Viseu não deixou de celebrar o melhor do cinema curto que passou pela cidade no último ano anunciando A Instalação do Medo, de Ricardo Leite como a Melhor Curta do Ano que arrecadou ainda o prémio de melhor argumento.
São os vencedores:
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Curta-Metragem: A Instalação do Medo, de Ricardo Leite
Realização: Belmiro Ribeiro, Post-Mortem
Actor: Welket Bungué, Bastien
Actriz: Helena Canhoto, Vícios para uma Família Feliz
Argumento: Ricardo Leite, A Instalação do Medo
Montagem: Joana Maria Sousa, Cavallo
Fotografia: Pedro Azevedo, Jigging
Som: Jérémy Pouivet, Post-Mortem
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Revenge Porn (2017)

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Revenge Porn de Guilherme Trindade é uma curta-metragem portuguesa de ficção que marcou presença em competição na última edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa - que terminou no passado Domingo - ao prémio MOTELx de Melhor Curta Portuguesa de Terror.
Um encontro de Wayne (João Harrington Sena) com Sandy. Enquanto ela espera pela última esperança de um encontro normal, ele exibe-se como o machismo convencido de quem ela já suspeita. Terá ele outros planos para uma noite que ainda não terminou?!
Depois do maravilhoso Offline onde a temática do "amor" pairava por todas as esquinas, Guilherme Trindade assina o argumento deste Revenge Porn que leva o terror a toda uma nova dinâmica de sobrenatural meets online cam sex.
"Wayne" é um tipo desligado, assumidamente grosseiro e para quem as mulheres são apenas um objecto do qual se serve - e que o serve - para os instantes de prazer que os caprichos do seu pénis (estamos num blog familiar vamos manter a linguagem assim lol) exigem. Nada parece ser um obstáculo para os referidos caprichos... nem os sentimentos, nem a pessoa, nem tão pouco o sexo daqueles com quem potencialmente se encontra para os satisfazer - qual macho latino... ou talvez não!. Para "Wayne"... vale tudo.
De sexo virtual no seu telemóvel a inúmeros momentos frente ao seu computador pelas mais variadas salas de chat-cam, o que importa é a satisfação momentânea facultada... por quem quer que seja. De virtual anónimo a potencialmente revelador da sua identidade - e talvez daquela de quem está do outro lado - a satisfação máxima e o clímax são os únicos objectivos a ter em conta. Até que o encontra...
Os instantes em que "Wayne" satisfaz as suas necessidades carnais e em que conversa... com o seu "companheiro" oscilam entre o hilariante, entre a comédia que se adivinha gore e um terror sobrenatural que apenas a existência das redes virtuais que do distante fazem próximo, confirmam ao espectador que afinal estamos todos num espaço terreno... mas com forças existenciais que se propagam... online.
Dos malefícios da rede ao facilitismo do "online" - curiosa contraposição à longa-metragem anteriormente referido onde o off representa uma maior proximidade ao amor e não à desconexão do sexo anónimo - passando pelo humor gore onde a masturbação frenética faz atinge um banho de sangue e não a ejaculação do protagonista, Revenge Porn é uma original e bem sangrenta forma de se fazer humor sério onde para lá da pouca simpatia que o protagonista nos deixa - um bravo a Harrington Sena - e da indiferença que nos suscita o seu "castigo", o espectador reflecte ainda sobre os perigos do "online" - ocultismo à parte - onde tudo se vê, tudo se sente e tudo se vinga.
Com uma obra onde as novas tecnologias são assumidamente um elemento a destacar - Offline (2016) e agora este Revenge Porn -, Guilherme Trindade comprova com esta sua curta-metragem que o estilo gore teria umas interessantes "pernas" para andar possibilitando uma revitalização (ou surgimento) do cinema do género pelas terras lusitanas. Destaque ainda para a música original de Ricardo Remédio e para a direcção de fotografia pela mão do próprio realizador que dão a Revenge Porn uma atmosfera muito al'Argento, transformando-se em elementos fundamentais para a dinamização do ambiente e da atmosfera que se pretende fazer sentir.
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7 / 10
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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Tiago Ortis

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1978 - 2017
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Mark La Mura

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1948 - 2017
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Academia Portuguesa de Cinema selecciona...

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A Academia Portuguesa de Cinema seleccionou a longa-metragem São Jorge, de Marco Martins como o candidato nacional para representar Portugal aos Oscars na categoria de Melhor Filme Estrangeiro e aos Goya da Academia Espanhola de Cinema na categoria de Melhor Filme Ibero-Americano.
Depois de Alice em 2006, São Jorge é a segunda vez que uma obra do realizador Marco Martins é seleccionada para o chamado "prémio máximo do cinema mundial" sucedendo a Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira em 2017.
São Jorge conta a história de Jorge, um boxeur desempregado que tenta sustentar toda a sua família numa época em que a crise e a troika invadiram Portugal, vendo-se obrigado a recorrer a um trabalho numa empresa de cobranças coercivas para sobreviver estando as interpretações a cargo de Nuno Lopes - vencedor do prémio Orizzonti de Melhor Actor em Veneza em 2016 - Gonçalo Waddington, Mariana Nunes, David Semedo, José Raposo, Jean-Pierre Martins e Beatriz Batarda.
A 32ª edição dos prémios Goya será realizada em Madrid no próximo dia 3 de Fevereiro enquanto que a 90ª edição dos Oscars está marcada para 4 de Março seguinte, em Los Angeles.
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MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa 2017: os vencedores

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Terminou hoje a décima-primeira edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorreu desde o passado dia 5 de Setembro no Cinema São Jorge, no Teatro Tivoli BBVA e na Cinemateca Júnior tendo sido anunciados os vencedores dos prémios de Melhor Longa-Metragem Europeia de Terror e Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror do ano.
Foram os vencedores:
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Prémio MOTELx Melhor Longa de Terror Europeia - Méliès d'Argent: Die Hölle, de Stefan Ruzowitzky (Alemanha/Áustria)
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Prémio MOTELx - Melhor Curta-Metragem de Terror Portuguesa - Méliès d'Argent: Thursday Night, de Gonçalo Almeida
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Prémio MOTELx - Melhor Curta-Metragem de Terror Portuguesa - Menção Honrosa: Depois do Silêncio, de Guilherme Daniel
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domingo, 10 de setembro de 2017

Xavier Atencio

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1919 - 2017
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Mãe Querida (2017)

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Mãe Querida de João Silva Santos é uma curta-metragem portuguesa de ficção e uma das nomeadas ao Prémio MOTELx de Melhor Curta-Metragens Portuguesa de Terror no âmbito da décima-primeira edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que hoje irá terminar no Cinema São Jorge.
Negligenciada pela mãe e com a morte do pai presente no seu pensamento, Matilda (Diana Lopes Moreira), é uma jovem atormentada que resolve pedir a ajuda de uma Bruxa (São José Correia) para se livrar do seu maior problema... a mãe (Susana Sá).
João Silva Santos que além de realizar também assina o argumento desta curta-metragem, parece ter como sua clara fonte de inspiração a obra de Frank Perry, Mommie Dearest (1981). Para lá do óbvio distanciamento que o espectador pode encontrar em ambas - afinal, a "Joan Crawford" de Faye Dunaway tinha como fim último o estrelato a qualquer custo e a sua filha "Christina" não recorreu a nenhuma bruxa que "tratasse do caso" -, as semelhanças entre as duas obras é por demais evidente. Mas, se a sobrevivência de "Christina" se deveu a um afastamento escolhido e natural por parte da mesma, no nosso Mãe Querida esta separação entre a jovem e a sua mãe deve-se exclusivamente a um pacto - ou escolha - com o lado mais obscuro da vida (se é que ele existe).
A jovem "Mathilda" sofre com o comportamento tempestivo de uma mãe bastante preocupada com a sua diversão com um qualquer homem que leva lá para casa, enquanto a jovem se limita aos maus tratos, negligência e a um espectáculo macabro de auto-ridicularização que a mãe leva a "palco" sempre que lhe apetece. Os remorsos, quando existem, chegam sempre acompanhados da sobriedade mas, tal como ela, amarga demais para que seja possível encontrar um terreno firme e comum onde as duas se possam entender. A mãe vive iludida com a ideia de controle que tem sobre a filha e esta com a eventualidade de um rápido desaparecimento de progenitora para terras de onde nunca mais regresse. No final - questiona-se o espectador - irá alguma delas sobreviver a esta relação que não sendo de um total confronto é sentida como tensa e desagradável?!
Com uma ambiência que oscila entre o drama familiar e o psicodrama homicida, Mãe Querida consegue retirar duas interessantes interpretações de São José Correia como a enigmática bruxa e de Susana Sá como a mãe "pouco querida" e que ambas vivem numa posição antagónica que merecia ser mais explorada... Se por um lado uma tem um pacto com o outro lado mas demonstra preocupação com a jovem "Mathilda", a outra é o membro mais forte do grupo primário de qualquer criança que - aqui - vive mais preocupada com uma constante onda de diversão e irresponsabilidade. E tudo isto sem esquecer o "Vulto" que surge no pensamento de "Mathilda" como que o seu teste - ou comprovação - de que a sua mente já passou para um lado de onde não há regresso possível.
Longe de ser um trabalho assumidamente de terror, afinal... elementos por ali existem que o colocariam mais facilmente num drama familiar, Mãe Querida consegue a proeza de recuperar um já longo êxito da música popular portuguesa e contextualizá-lo numa história de um possível terror "urbano" onde por detrás das paredes de um qualquer lar pode esconder-se um sofrimento que cresce e que se desenvolve sem que ninguém note a sua presença.
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6 / 10
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sábado, 9 de setembro de 2017

Festival Internacional de Cinema de Veneza 2017: os vencedores

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Terminou hoje a mais recente edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza tendo a mais recente obra de Guillermo del Toro arrecadado o mais alto troféu da edição, o Leão de Ouro. São os vencedores:
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Competição Oficial
Leão de Ouro: The Shape of Water, de Guillermo del Toro
Grande Prémio do Júri: Foxtrot, de Samuel Maoz
Prémio Especial do Júri: Sweet Country, de Warwick Thornton
Leão de Prata - Realizador: Xavier Legrand, Jusqu'à La Garde
Coppa Volpi - Actor: Kamel El Basha, The Insult
Coppa Volpi - Actriz: Charlotte Rampling, Hannah
Argumento: Martin McDonagh, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Prémio Marcello Mastroianni - Jovem Intérprete: Charlie Plummer, Lean On Pete
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Secção Orizzonti
Filme: Nico, 1988, de Susanna Nicchiarelli
Realizador: Vahid Jalilvand, No Date, No Signature
Prémio Especial do Júri: Caniba, de Lucien Castaing-Taylor e Verena Paravel
Actor: Navid Mohammadzadeh, No Date, No Signature
Actriz: Lyna Khoudri, Les Bienheureux
Argumento: Los Versos Del Olvido, de Alireza Khatami
Curta-Metragem: Gros Chagrin, de Céline Devaux
Leão do Futuro - Prémio “Luigi De Laurentiis” Primeira Obra: Jusqu’à La Garde, de Xavier Legrand
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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Blake Heron

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1982 - 2017
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O Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa (2016)

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O Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa de Henrique Costa e Hugo Passarinho é uma curta-metragem portuguesa de animação e uma das candidatas ao Prémio de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror nesta décima-primeira edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre no Cinema São Jorge até ao próximo dia 10 de Setembro.
Numa qualquer rua da Lisboa dos anos 80, um homem e um cão cruzam-se junto de um dos inúmeros candeeiros da cidade. Fazendo jus a um dos muitos hábitos humanos, o candeeiro serve como base da necessidade daqueles que ali se cruzam... Até que um deles achar que o seu território está a ser invadido.
Em cinco breves minutos, O Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa consegue não só recriar algum humor - por vezes muito habitual nas histórias de terror - como também instalar uma interessante atmosfera de tensão onde todos se tornam suspeitos e onde as vítimas surgem inesperadamente ao virar da esquina... literalmente.
No reino das (im)probabilidades e com referências muito tradicionais à cidade que aqui ganha uma estranha vida assumindo uma cumplicidade com o terror, O Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa faz da animação um veículo para chegar a uma história de crime onde o inesperado é lei e o absurdo impera deixando apenas - para o espectador - a não tão ligeira convicção de que esta história poderia ter sido ido muito mais longe e os trágicos destinos das suas personagens (estas e tantas outras) multiplicados vezes sem conta numa Lisboa que nem sempre está a dormir quando as horas assim o pedem.
Com uma banda-sonora a condizer e um espírito muito Lisboeta por detrás de todo um terror humorístico, O Candeeiro - Um Filme à Luz de Lisboa tem o potencial de ser aquela longa-metragem de animação que com o devido investimento extra... deveria ser.
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6 / 10
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Rökkur (2017)

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Rökkur de Erlingur Thoroddsen é uma longa-metragem islandesa presente na competição de Melhor Longa-Metragem Europeia de Terror no decorrer desta décima-primeira edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que termina no próximo domingo dia 10 de Setembro no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Meses depois da sua relação com Einar (Sigurdur Óskarsson) ter terminado, Gunnar (Björn Stefánsson) recebe um telefonema dele que o deixa desconfortável e premonitório de algo que se anuncia sem se identificar. Ao chegar à casa isolada onde Einar se refugiou do mundo, recebem a visita de um estranho que não chegam a ver enquanto revisitam a sua relação e o seu passado. Ensombrados por uma memória que persiste em ressurgir, estarão ambos a viver um sonho ou uma perturbadora realidade?
Vários são os elementos que transformam esta longa-metragem numa das mais fortes em competição. Começando pelo argumento também da autoria de Thoroddsen, Rökkur mantém-se durante as suas quase duas horas como uma história que encurrala o espectador no campo das incertezas e das suposições enquanto que, ao mesmo tempo, transforma toda a atmosfera envolvente num espaço claustrofóbico a céu aberto onde o isolamento auto-imposto dos seus protagonistas se adensa e (n)os consome. Existe algo para lá daquilo que inicialmente compreendemos mas, sem nunca se adiantar aumentando as expectativas do que nos espera, Rökkur apresenta-se apenas como uma história de dois ex-amantes e cúmplices que o destino separou pela inversa proporcionalidade da maturidade de um em relação ao outro sob, no entanto, a perspectiva daquele que se crê mais "adulto".
Aos poucos percebemos que a cumplicidade não se perdeu na sua totalidade. Percebemos ainda que tanto existe por dizer mas que, no entanto, a incapacidade em esperar ou mesmo a vontade de compreender o outro, limitou as escolhas e as percepções sobre o "outro" ao mesmo tempo que esta falta de vontade faz revelar o passado de um "Gunnar" aparentemente mais frio e distante do que "Einar"... a esperada criança perdida. A cumplicidade entre os dois jovens adultos que inicialmente se anunciava como algo inexistente ou perdido com o passar dos meses, revela-se afinal como um "ser" que esperava no canto por ser reanimado enquanto que a forçada idade adulta de "Gunnar" que o transformara num homem mais impaciente e menos predisposto a tolerar a observada infantilidade e caprichos de um "Einar", rapidamente se molda num misto de compreensão e desejo que, afinal, não havia desaparecido dos seus sentimentos. No entanto, existe algo que insiste em pairar no ar e deixar a convivência entre os dois ameaçada.
O espectador sente não uma desconfiança nas intenções dos dois ex-apaixonados mas sim um misto de suspeita sobre o que realmente os ensombra. É este "ser" oculto - que se mantém uma constante desde os instantes iniciais - que apenas poderá ser expiado se os seus passados forem revelados, e é na revisitação dos mesmos em comum que o espectador irá começar a compreender que ambos vivem presos numa infância perdida e numa idade adulta forçada que os irá condenar - se é que esta condenação já não havia chegado! -, confinando-os a uma relação "impossível" em comum mas cobiçada pelos potenciais predadores que os esperam nas sombras de uma Islândia gélida e proporcionalmente assustadora na sua imensidão desértica.
Do coming of age forçada a um clima tenebrosa que se esconde para lá do imaginado - afinal, boa parte de Rökkur ocorre em cenários de vegetação escassa e de espaços abandonados pela mão do Homem -, aquilo que o espectador mantém como certo é que o terror pode surgir através de fantasmas de um passado não resolvido que ganham forma como seres que se escondem "entre nós" e os quais carregamos toda uma vida, e não necessariamente sob a forma de outro "alguém" que espreita, que observa e que congemina enquanto não estamos a olhar. No entanto... e se este outro "alguém" também existir enquanto forma real?!
Se o passado de "Gunnar" e de "Einar" esconde os seus próprios demónios que ganham forma enquanto eles os evitam, não deixa de ser uma questão real que os monstros existem e que se escondem sob a forma humana prestes a atacar a mais inocente e perturbada das vítimas no seu momento mais frágil. O terror afinal pode existir e viver entre nós, entre os mitos urbanos que lhe associamos relativizando a sua acção e, ao mesmo tempo, ele consome a "nossa" força, ganhando coragem e tornando-se mais destemido para poder uma vez mais atacar quando menos se espera. A vítima, quase sempre indefesa pelos seus próprios traumas e temores, fragiliza-se, vivendo numa angústia e num medo de que o dia de amanhã possa ser cada vez mais solitário e amargurado cedendo - sem saber - às caprichos desse mal real que invade e se instala.
Rökkur recria o terror real - aquele que reside no rosto do aparentemente mais pacato - levando-o a entrar dentro da nossa zona de conforto, do nosso espaço mais íntimo quebrando a barreira entre o estranho e o familiar, mantendo o espectador num estado de suspensão que se agudiza lentamente e que apenas se revela quando a premonição (de "Gunnar") se confirma não só para o materializar como principalmente para o salvar - ou talvez não - do mesmo. As gélidas mas intensas paisagens naturais de uma Islândia polida e limpa ganham forma como instrumentos de materialização desse "mal" que espreita e que esconde não só as suas vítimas como principalmente os seus intensos predadores, deixando a criação de um ambiente natural para o mesmo (mal) a cargo de uma música original de Einar Sv. Tryggvason e da direcção de fotografia de John Wakayama Carey que enriquecem essa sensação de solidão, de perda e de transformação.
Com duas sólidas e intensas interpretações de Stefánsson e Óskarsson, Rökkur é aquela longa-metragem surpresa e quase improvável que confirma um novo tipo de terror livre de seres sobrenaturais revelando que os monstros podem não só encontrar-se nas nossas memórias como também na porta da casa do lado.
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8 / 10
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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Kuso (2017)

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Kuso de Flying Lotus é uma longa-metragem norte-americana presente na secção Serviço de Quarto da décima-primeira edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre até ao próximo Domingo no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Depois de um devastador terramoto atingir a cidade de Los Angeles, o espectador acompanha um conjunto de sobreviventes bem como à sua estranha e grotesca existência.
Apresentado como um filme sensação pelos diversos festivais de cinema por onde já passou, esta história cujo argumento é assinado pelo realizador em colaboração com David Firth é literalmente aquilo que qualquer um de nós pode chamar de um filme de merda. Que me desculpem os mais puritanos pela linguagem - que existe no dicionário de língua portuguesa por isso... não entremos em nenhum fanatismo puritano -, mas Kuso é sob todas as possíveis e imaginadas vertentes... um filme de merda. Senão, vejamos...
Depois do tão badalado terramoto do qual o espectador não é testemunha, encontramos todo um conjunto de bizarras e alternativas personagens marcadas por intensos furúnculos faciais e demais deformações físicas que passam por chagas e aparentes mutilações, cujo único propósito é o elogio à deformação, ao anormal e à aberração voluntária alternando entre personagens reais e fictícias como que todas elas saídas do mais profundo espaço do intestino do planeta. Não, não nos encontramos perante demónios... encontramo-nos sim perante os excrementos que ousaram sair das profundezas da Terra aqui apresentados como "humanos"... bem alternativos.
Tudo - das personagens ao espaço que habitam sem esquecer a sua própria apresentação - é do mais profundo asqueroso que qualquer espectador pode imaginar. Entre a excitação pela violência à existência de fezes humanas em forma de cus anormais, aqui podemos encontrar de tudo. Sado-masoquismo, mutilação, auto flagelação, infecções que se sucedem entre segmentos de ficção e de animação que parecem querer dar vida a um estranho e bizarro pesadelo onde o susto reina pela deformação e pelo aspecto asqueroso que cada uma destas personagens parece querer personificar.
Pelo meio reina a coprofagia - necessidade de ingestão de fezes - e por "necessidade" quero realmente dizer que existe uma constante em Kuso que leva as suas personagens a conviver com fezes que falam, que existem mais altas do que seres humanos já criados, que emergem de todos os locais, que servem de alimentação, como pretexto de excitação sexualmente e que levam alguns dos intervenientes a gostarem de nelas se banhar ou mesmo sair de sanitas onde outros acabaram de se aliviar - eis o filme de "merda" a ganhar vida - e tudo como se fosse uma prática normal... com ou sem terramoto.
Acredito em movimentos vanguardistas que pretendem possibilitar ao espectador novas abordagens quer sob a forma de filmar ou até mesmo na capacidade de contar histórias de outras formas que vão para lá do tradicional. No entanto, Kuso é um projecto que apenas se concentra em dar vida a devaneios pseudo-artísticos do seu realizador (con)centrado no choque pelo grotesco, no espectador apenas como forma de um lucro fácil tentando criar um filme porno que não o chega a ser - poupem-me ao segmento inicial onde o esperma é rei - e um filme apocalíptico onde o fim do mundo apenas chega sob a forma dos seus intérpretes que devem estar no seu fim para ceder a participar em algo como "isto".
Degradante - para quem o fez - humilhante - para o espectador interessado em cinema - e grotesco ou nojento sob todas as possíveis perspectivas pelas quais possa ser observado, Kuso não é o filme mais nojento de sempre... pelo contrário... Kuso é simplesmente a maior aberração cinematográfica dos últimos cem anos e isto não é dito sob a forma de qualquer elogio escondido.
Receptivo que estou e sou a todas as formas de cinema e todas as potenciais histórias que podem, devem e querem ser contadas... Kuso é simplesmente algo tão ou mais deformado do que aquilo que (alguma vez) foi contado onde sexo e merda se juntam como se dois gémeos siameses fossem.
A pior aposta - de sempre - do MOTELx... Cinema? Isto? Não obrigado!
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1 / 10
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Kaleidoscope (2016)

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Kaleidoscope de Ruper Jones é uma longa-metragem britânica em competição para o prémio de Melhor Longa-Metragem de Terror Europeia na décima-primeira edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Carl (Toby Jones) é um inadaptado. Tendo como única e esporádica companhia a vizinha do lado, Carl tenta conhecer a mulher dos seus sonhos e que dê algum sentido a uma vida aparentemente insignificante. Quando Carl conhece Abby (Sinead Matthews), longe estaria de perceber que a sua vida iria alterar-se radicalmente e despertar os seus demónios interiores personificados na figura de Aileen (Anne Reid) a sua possessiva e disfuncional mãe.
O ambiente recriado com o argumento de Rupert Jones é, desde os instantes iniciais, prenúncio de uma espiral descendente na mente do protagonista. De início o espectador compreende-o como um homem solitário e triste a quem a vida não deve ter sorrido nem deixado grande esperança sobre um amanhã que se faz anunciar mas que nunca se cumpre com a positividade que dela ele espera. No entanto, é à medida que a trama avança que se compreende que este homem é, para lá de um inadaptado, alguém com um passado que o distanciou de uma normal convivência com o seu semelhante, remetendo-o para um espaço de auto-isolamento que é mais ou menos compreendido pelo mesmo como aquele em que tudo irá estar - pelo menos - coerente.
A breve convivência de "Carl" com "Abby" é subitamente ensombrada com a presença de "Aileen" - a mãe dele - que chega como uma pesada consciência que não o quer libertar de um passado que lentamente é compreendido pelo espectador como portador de um terrível e temido segredo que poderá - e será - a causa de toda a apatia social que o condena. Se até então "Carl" era o tal simpático inadaptado, agora o espectador irá passar a observá-lo enquanto um homem capaz de tudo para se libertar desse passado, capaz de tudo cometer para a ele sobreviver mas sobretudo incapaz de se libertar da imagem materna que o deixou num estado de adulto-infantil que cede a caprichos e a vontades biológicas inerentes ao desenvolvimento do seu próprio organismo.
Com uma clara mensagem subliminar de homenagem a filmes como Psycho (1960, Kaleidoscope esconde por detrás deste turbilhão de emoções, o seu verdadeiro lado negro. Percebemos que "Carl" se afastou de qualquer ligação familiar por um evento que marcou a mesma. Percebemos que a tensão e a pressão desses acontecimentos o marcaram de forma irreparável e sobretudo que pequenos momentos o transportam a esse mesmo lugar que, passados anos, não deixaram de existir enquanto traumatizantes. O caleidoscópio que guarda religiosamente e que lhe permite ver toda uma nova tonalidade de cores e todo um diferente universo - mais tarde no filme perceberemos o porquê - é o motor de toda essa espiral descendente e só quando iniciado perceberá o espectador tudo o que se esconde por detrás da inaptidão de "Carl". A sua incapacidade de amar - ou deixar-se ser amado - fruto de um claro abuso materno psicológico, físico e mesmo sexual e de uma constante dominância que a figura materna ainda exerce sobre ele - e que deixam o espectador numa incerteza se ela de facto se encontra ali ou se a possibilidade de um amor a fazer despoletar - levam a que o protagonista se isole dentro do seu próprio mundo e dentro de um conjunto de pensamentos que o levam à sua própria destruição.
Neste ambiente constantemente dúbio e de incertezas onde todos parecem conspirar contra a sanidade de "Carl", mas que mais não são do que o resultado de uma sociedade que se aproveita do elo mais fraco e do próprio trauma resultante da sua anterior condição de vítima, Kaleidoscope leva o espectador a uma enigmática mas perturbante viagem à mente de um homem com um passado que o marcou - marca?! - enquanto uma vítima, e às inúmeras defesas que essa mente cria enquanto mecanismo de sobrevivência social, pessoal e emocional deixando-o num constante limbo entre o real e o irreal e ao espectador com a certeza de que esta mente perturbada e incerta está sujeita a que todas as pressões externas o façam, a qualquer momento, ceder não prevendo as potenciais consequências.
Rupert Jones - realizador, argumentista e irmão do protagonista - consegue retirar de Toby Jones uma das suas mais controladamente intensas interpretações dos últimos anos, transformando-o num potencial eremita cujo seu ponto de ruptura pode a qualquer momento rebentar, e confere ao seu Kaleidoscope o estilo de um bem executado thriller moderno capaz de manter o suspense e o espectador em suspenso sobre o desfecho de um conjunto de personagens que habitam uma aparente realidade paralela e uma constante questão... estará todo o demais mundo a suspeitar da "minha" existência... ou estarei "eu" afastado da realidade enquanto tal?!
Até ao momento uma das mais fortes apostas do MOTELx e um sério candidato ao troféu de Melhor Longa-Metragem de Terror do ano nesta décima-primeira edição do festival. Recomendo não só pela interpretação de Jones como principalmente por toda uma atmosfera claustrofóbica e de vontade de evasão que se consegue recriar dentro de um pequeno - senão minúsculo - apartamento onde tudo parece estar a acontecer.
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7 / 10
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And the Governors Awards go to...

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A AMPAS - The Academy of Motion Pictures Arts and Sciences, vulgarmente conhecida como A Academia, divulgou ontem os recipientes dos Governors Awards - Oscars Carreira - de 2017. Entre eles estão dois realizadores (e um ainda argumentista), um director de fotografia e um actor. São eles:
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O actor canadiano Donald Sutherland (1935) como uma carreira cinematográfica e televisiva que estende por mais de cento e cinquenta filmes iniciada em 1962. Não tendo recebido créditos pela sua primeira obra cinematográfica The World Ten Times Over (1963), de Wolf Rilla, é no ano seguinte que interpreta aquele que pode ser considerado o seu primeiro crédito no cinema com Il Castello deiMorti Vivi, de Warren Kiefer, Luciano Ricci e Michael Reeves tendo contracenado com Christopher Lee. A sua grande oportunidade chega em 1967 com The Dirty Dozen, de Robert Aldrich onde contracena com Lee Marvin, Ernest Borgnine, Charles Bronson, John Cassavetes e George Kennedy. Em 1970 chega um dos maiores sucessos da sua carreira com MASH, de Robert Altman onde contracena Elliott Gould, Tom Skerritt, Robert Duvall e Sally Kellerman.
Entre as inúmeras obras cinematográficas em que participou, Sutherland trabalhou com realizadores como Freddy Francis, James B. Harris, Arthur Hiller, David Greene, Ken Russell, Kevin Billington, Philip Saville, Gordon Flemyng, Michael Sarne, Bud Yorkin, Brian G. Hutton, Paul Almond, Paul Mazursky, Alan Arkin, Dalton Trumbo, Alan J. Pakula, John Schlesinger, Bernardo Bertolucci, Federico Fellini, Claude Chabrol, John Landis, Philip Kaufman, Robert Redford, Hugh Hudson, John Flynn, Euzhan Palcy, Ron Howard, Oliver Stone, Fred Schepisi, Barry Levinson, Wolfgang Petersen, Joel Schumacher, Jon Turteltaub, F. Gary Gray, Anthony Minghella, Joe Wright, Giuseppe Tornatore, tendo ainda por estrear uma longa-metragem dirigida por James Gray e tendo ainda dividido o ecrã com actores como Sidney Poitier, Sylvester Stallone, Richard Widmark, Warren Beaty, Leslie Caron, Oliver Reed, Michael Caine, Karl Malden, Christopher Plummer, Diahann Carroll, Clint Eastwood, Geneviève Bujold, Ellen Burstyn, Vincent Gardenia, Jane Fonda, Robert De Niro, Gerard Depardieu, Jeff Goldblum, Timothy Hutton, Mary Tyler Moore, Al Pacino, Nastassja Kinski, Susan Sarandon, Marlon Brando, Kurt Russell, William Baldwin, Kevin Costner, Gary Oldman, Jack Lemmon, Will Smith, Stockard Channing, Ian McKellen, Michael Douglas, Demi Moore, Dustin Hoffman, Kevin Spacey, Morgan Freeman, Rene Russo, Sandra Bullock, Matthew McConaughey, Samuel L. Jackson, Aiden Quinn, Ben Kingsley, Denzel Washington, John Goodman, Anthony Hopkins, Cuba Gooding Jr., Tommy Lee Jones, James Garner, Marcia Gay Harden, Mark Wahlberg, Edward Norton, Charlize Theron, Nicole Kidman, Jude Law, Renée Zellweger, Natalie Portman, Keira Knightley, Brenda Blethyn, Sissy Spacek, Jennifer Lawrence, Geoffrey Rush preparando-se ainda para contracenar com Brad Pitt, Ruth Negga e Brie Larson.
Entre os inúmeros prémios que já ganhou encontram-se dois Globos de Ouro, um Emmy e ainda a Ordem de Artes e Letras do Estado Francês.
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A realizadora franco-belga Agnès Varda (1928) cuja primeira longa-metragem é La Pointe-Courte (1952) tendo ainda dirigido Cléo de 5 à 7 (1962), Le Bonheur (1965), Sans Toit ni Loi (1985), Jacquot de Nantes (1991), Les Glaneurs et la Glaneuse (2000), Les Plages d'Agnès (2008) e cuja última obra data deste ano Visages, Villages.
Entre os troféus já alcançados por Varda destacam-se um Urso de Prata do Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Palma de Ouro Honorária do Festival Internacional de Cinema de Cannes, três César da Academia Francesa de Cinema, dois European Film Awards da Academia Europeia de Cinema, o Leopardo de Ouro em Locarno, o Prix Louis Delluc e ainda três prémios do Festival Internacional de Cinema de Veneza incluindo um Leão de Ouro.
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O realizador e argumentista norte-americano Charles Burnett (1944) cuja primeira obra que dirigiu foi a curta-metragem Several Friends (1969) tendo a primeira longa-metragem chegado nove anos depois Killer of Sheep (1978), seguindo-se-lhe My Brother's Wedding (1983), To Sleep with Anger (1990), The Glass Shield (1994), The Annihilation of Fish (1999) e Namibia: The Struggle for Liberation (2007) por entre inúmeras curtas-metragens e telefilmes estando por estrear a sua mais recente obra Edwin's Wedding.
Entre os prémios já conquistados encontram-se os do American Film Institute, do Festival Internacional de Cinema de Berlim, da crítica de Nova York e ainda do Festival de Sundance.
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Finalmente o quarto e último premiado é o director de fotografia norte-americano Owen Roizman (1936), já nomeado ao Oscar da Academia em cinco ocasiões - The French Connection em 1972, The Exorcist em 1974, Network em 1977, Tootsie em 1983 e em Wyatt Earp em 1995 - tendo ainda créditos em filmes como Play It Again, Sam! (1972), The Heartbreak Kid (1972), The Stepford Wives (1975), Three Days of the Condor (1975), The Return of a Man Called Horse (1976), True Confessions (1981), Absence of Malice (1981), The Addams Family (1991) entre inúmeros videoclips de Madonna.
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Os galardoados receberão os seus troféus numa cerimónia a realizar em Los Angeles no próximo dia 11 de Novembro.
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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Dave Made a Maze (2017)

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Dave Made a Maze de Bill Watterson é uma longa-metragem norte-americana presente na secção Serviço de Quarto da décima-primeira edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre no Cinema São Jorge até ao próximo dia 10 de Setembro.
Dave (Nick Thune) é um artista que ainda não teve o seu momento. Deprimido e com alguma falta de criatividade, lança-se na construção de um labirinto... dentro da sua casa. Aquilo que surge como o fruto de uma mente imaginativa desocupada cedo ganha proporções avassaladoras e perigos inesperados. Poderá Dave e o seu conjunto de amigos libertar-se de uma ameaça constante que lentamente transcende o seu próprio imaginário?!
Num estilo inicial que mescla o mockumentary e a ficção, Dave Made a Maze sente-se como um filme feito com um conjunto de amigos descomprometidos e descontraídos que resolveram divertir-se num final de semana. Com um argumento escrito pelo realizador em parceria com Steven Sears, esta longa-metragem tende a sugerir muito facilmente que foi tudo elaborado no barracão lá de casa, deixando trespassar a ideia de que os meios eram poucos apesar da imaginação pedir que o espectador se deixe levar pelos encantos de uma super-produção... que nunca o foi. Mas, se é aqui que reside o maior trunfo de Dave Made a Maze, pois o espectador deixa-se vaguear pela sugestão, pelo imaginário e pelas componentes que o vão abrilhantando  - afinal, não sofremos neste exacto momento do mesmo problema que "Dave" onde tudo é entregue ao espectador por um conjunto de efeitos especiais mais ou menos elaborados que tudo nos revelam sem que a imaginação funcione na sua totalidade?! - criando o seu próprio universo à medida que as imagens permitem ir observando um pouco mais de um labirinto que, na prática, mais não é do que o conjunto de alguns corredores em cartão dentro... de uma sala de um apartamento...
Os monstros, as fugas, as personagens que caem perante as mais diversas - e amadoras - armadilhas (talvez fruto da capacidade de imaginar e antever os perigos por mais elementares que estes sejam) bem como um conjunto de elementos que parecem realmente saídas do imaginário de uma criança fazem com que Dave Made a Maze oscile entre o amador mas competente, e o profissional mas tendencialmente menos perfeccionista. Afinal, são os momentos que o espectador identifica como capazes de ser o fruto da imaginação de uma criança aqueles que melhor estão executados como, por exemplo, a capacidade de algo tão gigantesco caber dentro de um minúsculo apartamento ou mesmo a mais ou menos elaborada fuga dos últimos sobreviventes por um cano quando, ao dele saírem, mais não são do que meras marionetas de cartão que fogem de um perigoso minotauro que os persegue sem perdão, em contraste com alguns efeitos especiais mais "profissionais" que deixam o mesmo espectador indeciso sobre a sua necessidade ou menos credulidade.
As personagens são privadas de grande vivacidade ou conteúdo dramático remetendo-se quase exclusivamente para o campo da despreocupação... afinal, todos deambulam por aquele labirinto como sendo "muito natural" ao mesmo tempo que não acreditam que, na realidade, ali se encontram. No entanto, acaba por ser esta despreocupação o mesmo elemento que torna tudo francamente ligeiro... pouco credível... mas ligeiro. Não estamos a ver Dave Made a Maze para acreditar na sua premissa nem tão pouco sermos convencidos pelas suas personagens. Pelo contrário, em Dave Made a Maze todos funcionam com o único propósito de fazer crer ao espectador que é o poder de uma imaginação "desactivada" que faz girar o mundo das ideias e das hipóteses e não todo uma elaboração coordenada que trabalha para essa ilusão. A ilusão, a existir, é fornecida pela imaginação de cada um - neste caso de "Dave" - que faz acontecer aquilo que é mentalmente visualizado, e não necessariamente pela exteriorização dessa mesma imagem criada por um qualquer financiamento mais chorudo. Dave Made a Maze funciona assim com esse pressuposto... a imaginação trabalha e cria todo um mundo diferente sem que seja necessário o recurso a algo previamente programado... afinal, não é esse também o poder do cinema? Criar todo um diferente universo fornecido pelo pressuposto de que "é possível"?
Imaginativo quanto baste, o único elemento que o espectador sente ser mesmo necessário em Dave Made a Maze é a melhor coordenação e elaboração de personagens mais credíveis que não sejam, em certa medida, pesos mortos numa história que tinha tudo para ser aquele grande filme que se espera graças ao seu argumento. Com um genial segmento onde personagens reais se transformam em marionetas de cartão, um minotauro que poderia ter sido muito melhor aproveitado - afinal, ele acaba por ser o elemento do "mal" anunciado que por ali vagueia - e um argumento promissor enquanto elemento principal da noção de que a nossa mente e imaginação podem ser (ou não) os nossos maiores inimigos, Dave Made a Maze entretém, até distrai mas acaba por não convencer na sua totalidade deixando apenas a direcção artística como o seu mais forte e principal elemento... less is more... e é um facto.
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"Dave: Do you know what it means to be broke?
It means you are broken."
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5 / 10
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Academia Brasileira de Cinema 2017: os vencedores

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Foram ontem revelados no Theatro Municipal do Rio de Janeiro os vencedores dos prémios anuais da Academia Brasileira de Cinema que destacou Aquarius, de Kleber Mendonça Filho como o Melhor Filme do Ano e ainda Elis, de Hugo Prata como o mais premiado da noite arrecadando oito troféus incluindo o de Melhor Actriz.
São os vencedores:
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Longa-Metragem de Ficção: Aquarius, de Kleber Mendonça Filho (real) e Emilie Lesclaux (prod.) por Cinemascópio
Longa-Metragem de Ficção - Voto do Público: Boi Neon, de Gabriel Mascaro
Longa-Metragem de Comédia: O Shaolin do Sertão, de Halder Gomes (real.) e Halder Gomes e Márcia Delgado (prod.) por ATC Entretenimentos
Documentário Longa-Metragem: Cinema Novo, de Eryk Rocha (real.) e Diogo Dahl (prod.) por Coqueirão Pictures (Kino TV) e Eryk Rocha (prod.) por Aruac Filmes e Menino 23 - Infâncias Perdidas no Brasil, de Belisario Franca (real.) e Maria Carneiro da Cunha (prod.) por Giros
Documentário Longa-Metragem - Voto fo Público: Menino 23 - Infâncias Perdidas no Brasil, de Belisario Franca
Longa-Metragem Estrangeira: Arrival, de Denis Villeneuve (EUA)
Longa-Metragem Estrangeira - Voto do Público: The Danish Girl, de Tom Hooper (Reino Unido/USA)
Longa-Metragem Infantil - Menção Honrosa: Carrossel - O Sumiço de Maria Joaquina, de Mauricio Eça
Curta-Metragem de Ficção: O Melhor Som do Mundo, de Pedro Paulo de Andrade
Documentário Curta-Metragem: Buscando Helena, de Ana Amélia Macedo e Roberto Berliner
Curta-Metragem de Animação: Vida de Boneco, de Flávio Gomes
Realizador: Kleber Mendonça Filho, Aquarius
Actor: Juliano Cazarré, Boi Neon
Actriz: Andréia Horta, Elis
Actor Secundário: Flavio Bauraqui, Nise - O Coração da Loucura
Actriz Secundária: Laura Cardoso, De Onde Eu Te Vejo
Argumento Original: Domingos Oliveira, BR716 e Gabriel Mascaro, Boi Neon
Argumento Adaptado: Fil Braz e Paulo Gustavo, adaptação de "A minha Mãe é uma Peça”, de Paulo Gustavo, Minha Mãe é uma Peça 2 e Hilton Lacerda e Ana Carolina Francisco, adaptação da obra “Big Jato”, de Xico Sá, Big Jato
Montagem - Ficção: Tiago Feliciano, Elis
Montagem - Documentário: Renato Vallone, Cinema Novo
Fotografia: Adrian Teijido, Elis e Diego Garcia, Boi Neon
Música Original: Otavio de Moraes, Elis
Banda-Sonora: Mateus Alves, Aquarius
Som: Jorge Rezende, Alessandro Laroca, Armando Torres Jr. e Eduardo Virmond Lima, Elis
Direcção Artística: Frederico Pinto, Elis
Guarda-Roupa: Cristina Camargo, Elis
Caracterização: Anna van Steen, Elis
Efeitos Visuais: Marcelo Siqueira, Pequeno Segredo
Carreira: Helena Ignez e Antônio Pitanga

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terça-feira, 5 de setembro de 2017

The Void (2016)

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The Void de Jeremy Gillespie e Steven Kostanski foi uma das longas-metragens exibidas na secção Serviço de Quarto no dia de abertura do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre no Cinema São Jorge até ao próximo dia 10 de Setembro.
Numa noite igual a tantas outras Daniel (Aaron Poole), de serviço numa estrada deserta, encontra um homem ferido que decide levar para o hospital mais próximo quase praticamente desactivado depois de um incêndio. Depois de lá chegarem, estranhos acontecimentos começam a tomar forma e o hospital vê-se rodeado de estranhos encapuçados que impedem a saída dos que ali se encontram.
Numa luta contra o tempo e contra a inevitabilidade dos acontecimentos, Daniel terá não só de desvendar o mistério por detrás daqueles estranhos como restabelecer a ligação com a sua mulher desaparecida dentro daquele misterioso local.
Num registo próximo de The Body Snatchers - (1956, 1978 ou 1993) ou de The Invasion (2007), The Void recupera a linha de filmes onde o corpo do Homem mais não é do que um veículo para uma nova forma de vida que se faz anunciar neste sempre tão cobiçado planeta Terra. No entanto, e contrariamente às obras previamente enumeradas, The Void explora uma nova dimensão desta temática questionando o que será esta "invasão" se o invasor não chegar do espaço mas sim do próprio meio mais ou menos terreno que invoca as profundezas por explorar de um submundo que oscila ente o Purgatóio das almas perdidas e um Inferno onde os seus escolhidos foram todos condenados a um suplício constante. No fundo, o que existirá para lá do meio terreno que conhecemos onde "habitam" estranhas criaturas privadas de uma existência dita normal e que agora anseiam por regressar ao espaço que abandonar nas suas novas e disformes existências?!
Com claras referências bíblicas e religiosas - ou pelo menos profanas (não será que se mesclam?!) - que invocam os quatro cavaleiros do Apocalipse preparados para destruir a existência humana tal como a conhecemos através da fome, pestilência, morte e guerra, The Void não esquece ainda um saudoso The Prince of Darkness (1987), de John Carpenter onde pouco - muito pouco - separa o espaço terreno de uma outra existência profana, macabra e anti-natural que se prepara a qualquer momento para ressurgir através da invocação dos seus seguidores (sempre "inocentemente" misturados no meio de todos nós) disposto a implantar a sua nova ordem e uma ausência de lei que separa a vida (no seu sentido alto) da morte, criando uma eternidade (também auto-suficiente) e uma continuidade do seu "eu", onde reina o caos, a desgraça, uma falsa adoração e uma beleza muito alternativa no hediondo que se esconde por detrás dos supostamente mais "puros" garantindo a todos uma falsa sensação de liberdade na ausência da necessidade da carne como veículo para uma alma que, agora, se aparenta desaparecida.
A materialização dessa suposta nova "ordem" será então a existência terrena e real de um Inferno onde todas as criaturas adoradoras desse profano podem então caminhar enquanto iguais numa exibição do seu macabro, do hediondo e especialmente da sua capacidade de enquanto "caídos" poderem então existir entre todos os demais seres... agora uma minoria sem poder que ou se adaptam... ou serem exterminados pela sua outrora qualidade de "escolhidos" para ocupar a Terra. O tal "Vazio" onde todos estes seres se perfilavam, ausentes de um "céu" ou de um "inferno" tentam então ganhar a Terra - como seus novos (e merecedores) ocupantes -, materializando o pesadelo, o macabro e o hediondo como as novas formas de "vida" até então repudiadas e eliminadas da existência.
Com interpretações feitas à medida para o género de filme que The Void representa e onde, infelizmente, nenhuma se destaca pela diferença - regulares todos eles -, esta longa-metragem vale essencialmente pela capacidade de teorizar sobre esse tal submundo que se distancia de céu, de inferno e do purgatório, onde ninguém espera, ninguém está condenado nem tão pouco será representantes dos tais "escolhidos", manifestando-se apenas como os "outros"... perdidos e filhos do improvável que (des)esperam pela sua oportunidade para habitar o espaço que lhes fora proibido. Simpático mas incapaz de criar algum momento de tensão significativo, The Void vale pela perspectiva que "abre" e pela junção de sagrado e profano, bem como pela forma como apresenta o outro lado... não condenado mas inenarrado... Se uns são escolhidos e outros condenados... o que acontece àqueles que apenas estão permitidos a existir quando todos nós dormimos e mais não são do que um vislumbre nos nossos próprios pesadelos?!
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6 / 10
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